A luta indígena é pela vida e deveria ser pauta de todos os movimentos sociais

Quem não luta pela existência indígena está contra a vida e a favor do genocídio

Foto: Apib

A resistência é a principal característica da população indígena, não por opção, mas por sobrevivência, um povo sacrificado desde o início da colonização, quando viviam em condições escravas, sendo obrigados a trabalhar de graça e sem direito de viver a própria cultura, saberes, costumes e até mesmo de usar a língua materna, parte essencial da identidade indigenista. O histórico é de luta e luto, marcado por derramamentos de sangue e privação de liberdade.

Em pleno século XXI, em um mundo moderno e “evoluído”, as lutas continuam, algumas delas não mudaram, um exemplo, é a luta pelo direito de ter direito de permanecer nas próprias terras, lugar de morada dos indígenas, que na verdade são os legítimos descobridores do Brasil. País esse, que invalida a luta de mais de 500 anos, um tempo surreal, para quem é deixado à própria sorte, vítima de uma política criminosa, que deixa a vida indígena sob forte ameaça de apagamento.


somos um povo forte, aguerrido, em busca de libertação, de direitos básicos, um deles, o de existir. Imagina o que é lutar pelo direito à vida, o natural seria a fomentação ao crescimento populacional indigenista e não o apagamento totalitário da sua existência. Porém, quando se é indígena no Brasil, a ameaça e a insegurança são companheiras constantes, principalmente quando o governo é violento, maquiavélico e genocida.


O que não pode ser esquecido é que nós povos indígenas somos seres humanos de carne e osso, feridos pela trajetória de luta, que não atendem somente a nós indígenas, mas o todo, a luta por preservação do meio ambiente também é por quem vive na cidade, a luta por demarcação é para preservar um lugar de vivência que reflete em todos os habitantes brasileiros, seja por preservação animal ou respeito aos recursos oferecidos pela natureza, lugar sagrado para nós originários, que mantemos uma relação de troca com a mãe natureza.


Partindo disso, vale ressaltar que se a luta pela preservação da história indígena é de todos, logo, o todo deveria se unir aos protestos realizados por nós, que vivemos a solidão de um grito por socorro. Os movimentos sociais de diversas outras causas precisam entender que o patrimônio é de todos, e enfrentar junto aos originários a cúpula maliciosa que está à frente do país. E isso tem que ser para além da Internet, onde diversas pessoas demonstram afeto, repúdio e criam hashtags em defesa da luta indigenista, mas até onde isso é de verdade? E até onde isso realmente colabora na luta pela vida de nossos parentes? Será um comodismo de um lugar confortável que por meio de publicações meia boca se julgam participativos nas ações?


Há pouco mais de uma semana um grupo seleto de parentes ocuparam a frente do congresso nacional em um movimento chamado Levante Pela Terra, o nome já diz tudo, é pela terra, onde todos residem e usufruem de suas riquezas. E mesmo assim a falta humanitária rodeia os dias que se assemelham com campo de guerra, com ataques a balas, tentativa de eliminação em massa, incêndios e descumprimento feroz da constituição de 1988.

Os meus, que também são os seus, pois fazem parte da construção da história da nação Brasileira, estão travando lutas em séries contra os assassinos de lideranças indígenas, como o caso do parente Isac Tembé, morto violentamente a mando de fazendeiros, dentro da própria terra, deixando órfãs de sua ausência esposa e filha, ainda na barriga, que não teve a chance de conhecer o pai. A Luta é também contra garimpeiros ilegais, invasores das terras que são tradicionalmente espaços reservados à vivência indígena, de espiritualidade, de sabedoria, crença e respeito à floresta.


A prática da garimpagem causa consequências irreversíveis na saúde da população indígena, que são isentas de memórias imunológicas, o que os deixam vulneráveis a doenças levadas por criminosos para dentro da aldeia e também por substâncias tóxicas que interferem na alimentação e sobrevivência das comunidades. O garimpo mata, e a gente precisa falar sobre isso.


Além dos criminosos infiltrados em nossas terras, temos os fardados, disfarçados de protetores, que na primeira oportunidade atacam quem reivindica os direitos garantidos em lei, uma corja a serviço de um governo do genocídio e do ecocídio. Outra modalidade, porque sim, os criminosos estão por toda parte, os bandidos engravatados, que por meio de projetos absurdos, tentam passar por baixo dos panos, aprovações que trazem um retrocesso a nossa luta, e a luta de quem infelizmente não se faz presente na resistência indígena. Vidas indígenas importam, mas os textinhos nas redes sociais e hashtags não salvam vidas, é preciso bem mais que isso para combater a exclusão que nós indígenas vivemos.