A pluralidade de ser mãe


O parto traz o nascimento não somente de uma criança, mas também de uma mãe, é o início de uma trajetória de ensinamentos, sabedoria compartilhamento e muito afeto, porém, nem tudo é coletivo, as mães indígenas, assim como as mães não indígenas, possuem particularidades entre si, e mesmo nascidas originárias, não são iguais.

Para Ana Paula Tembé, 25 anos, residente de ginecologia obstétrica, na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMP), existem muitas diferenças nas etnias e também nas comunidades indígenas. "Todo ser humano possui características singulares, com base na realidade individual de cada um, a maternidade é um momento místico, o parto deve ser respeitado e quem decide isso é a mulher, ela deve ter o poder e a autonomia de parir da forma que ela quiser e isso deve ser aceito, ela é dona do próprio corpo. É isso que as pessoas devem entender", ressaltou a primeira médica indígena do povo Tembé.

A pluralidade da maternidade nasce dos diferentes perfis criados de acordo com cada mãe, o cenário molda as características, partindo do lugar onde ela vive na aldeia ou cidade, diversidade cultural, costumes, trabalho fora ou em casa, qual língua ela fala, se é mãe solteira ou tem um companheiro, se cresceu com os pais ou criada por terceiros, são inúmeros os recortes que fazem nascer à individualidade de uma mulher mãe.

As semelhanças também pairam no universo materno, ambas sentem dúvidas em relação à criação dos filhos, ficam preocupadas quando adoecem e sempre desejam que andem pelo melhor caminho e sejam felizes com suas escolhas. Mas lembrando de que não existe jeito certo ou errado de ser mãe, cada uma oferece o amor, o carinho e os ensinamentos que lhe foram passados dentro da tradição e diversidade cultural de cada povo.

Quando falamos de mãe indígena sempre esbarramos no preconceito, um deles é a rotulação de que mãe indígena não sente dor, a prova disso foi confirmada pela médica Ana Paula, que presenciou um ato de violência obstétrica com uma mãe indígena. “Uma vez no meu local de trabalho tinha uma gestante indígena na porta de entrada e um funcionário disse que como a gestante era indígena se não desse tempo de chegar à sala de parto ela iria parir no chão, e isso não era um problema. Por sorte temos uma equipe de enfermagem muito qualificada que prontamente respondeu à altura e tomamos as devidas providências, fiquei muito orgulhosa. E é isso que eu sempre tento pregar, sabe?! Tento espalhar um pouco dessa luz na cabeça das pessoas, pois ainda existe muito preconceito e mitos,” finalizou Ana Paula.

Ser mãe na comunidade indígena ou fora dela, é não se comparar, pois cada mulher possui um jeito próprio de lidar com a maternidade, é saber respeitar a multiplicidade de um momento sagrado e particular.