Conheça a Festa do muqueado do povo Tembé

Festas, danças, cantorias, ancestralidade e tradição são algumas das principais característica que identificam o povo Tembé-Tenetehar da Terra Indígena Auto Rio Guamá no Pará.

Imagem: Foto Reprodução / Festa Moqueado aldeia São Pedro

A festa do Wira U’ haw que na língua significa a “festa da menina moça”, tradicionalmente conhecida como a festa da Muqueado, secularmente realizada pela etnia Tembé que celebra a passagem de meninas e meninos da infância para a juventude ou início da vida adulta.


É um grande ritual, umas das festas principais e a mais famosa dos Tenetehar, se consolida em três fases, e a ordem natural de amadurecimento das meninas são respeitadas, e cada moça que menstrua fará parte do ritual daquele período.


A primeira etapa começa com a primeira menstruação da menina, ela é pintada e colocada na tocaia, a segunda fase é a realização do mingau, um dia de dança e cantoria, onde a menina serve o mingau, e a terceira e última fase é o grande moqueado que tem a duração de sete dias de festa, dia e noite, dançando e cantando.


Para fazer essa matéria especial, tivemos o auxílio da historiadora Larissa Oliveira da Costa, que fez sua pesquisa de conclusão do curso de História o projeto “Os ritos Tembé: A passagem da menina moça para a vida adulta” .


Menstruação e tocaia



Imagem: Foto Reprodução/ Festa do Muqueado Aldeia São Pedro

Quando a moça menstrua pela primeira vez, ela é pintada e colocada na tocaia como afirma Paulinho Tembé, uma das lideranças da aldeia ytaputyr. Na aldeia é reservado um lugar onde é construído a Tocaia - uma espécie de cabana feita de palha - para a mocinha passar os dias do período menstrual, nesse tempo de reclusão ela tem contato apenas com a mãe, pai e as mulheres mais velhas da família, e em caso de doença com o pajé. Atualmente a tocaia é feita geralmente no quarto da menina, mas nem sempre foi assim, antigamente a tocaia era construída longe da casa, como uma forma de protegê-la dos olhares de outras pessoas. “O processo após a menstruação da menina descer, se divide em duas formas, a reclusão e o Resguardo” Afirma Larissa em seu artigo.


A reclusão: menina é reclusa após anunciar para a família que está menstruada, é pintada com o liquido do jenipapo e posta na tocaia. Após banhada com o liquido extraído do jenipapo a menina ficara com a pele preta ou preta azulada, o efeito do liquido da fruta, age na pele como uma espécie de tintura. Ela deverá se manter em estado de reclusão cerca de uma semana, até que saia todo o jenipapo de seu corpo. Após a saída da tocaia as iniciadas ficarão de resguardo até a festa do mingau, e após, até a festa da menina moça.


Resguardo: o resguardo é de suma importância e jamais deverá ser desrespeitado. Nesse período a menina fica sobre o cuidado dos pais, elas não podem ir para o rio e floresta, e nem sair pra longe de casa. A alimentação deve ser seguida com cuidado para não entrar as reimas, comidas reimosas são proibidas.


O mingau


Após a saída da Tocaia é marcado o segundo ritual, conhecido por festa do mingau. Esse mingau é feito com a massa de mandioca e distribuído a todos os participantes da festa pelas próprias meninas. (mandioca é uma batata regional usada no preparo de farinha e mingau), O ritual do mingau acontece durante toda a noite, onde é feita dança e cantoria. O ato de servir o mingau é ensinamento para as tornarem mulheres adultas.

De acordo com Larissa “A pintura usada nos rituais, é a da lua e a pintura da onça, e elas possuem seus significados”. A pintura da onça é exclusiva para o rosto da menina, significa guerreira, a menina se tornará forte como a onça, a pintura passara para a menina a força e a coragem desse animal. A pintura da Lua que na língua Tenetehar quer dizer Zahy, significa um novo ciclo de vida. O mesmo que a menina estar vivenciando.


O ritual do mingau é o momento de celebração e de apresentação das meninas para a sociedade, em razão de que já vivenciaram a primeira menstruação, assim como ele possui significados cósmicos, estar para além de apenas apresentação, estar ligado a cura física e espiritual. No momento em que a menina prepara o mingau elas estão sobre auxilio das mães, que as orientam no que e como fazer, e os remédios surgem nesse mesmo tempo, a mandioca é usada nas articulações das meninas, e o vapor do mingau é colocado sobre os seios para que sejam boas mães. O preparo da massa do mingau é feito pelas meninas, e elas amassam a massa com os pés.


As orientações das mães e mulheres mais velhas é importante em todo o período da passagem, eles devem ser minuciosamente seguidos. Caso a menina desobedeça às regras do ritual, elas terão consequência no wira’ u haw a festa final.


A festa geralmente é feita uma vez por ano em cada região, por isso, geralmente as aldeias se reúnem para juntar os participantes das aldeias próximas, como no caso das Aldeias Ytaputyr, Frasqueira e a aldeia Sede, situadas na Terra indígena alto Rio Guamá (TIARG) em Santa Luzia do Pará, a festa ocorrera na aldeia franqueira.


A preparação do grande Muqueado



Imagem: Foto Reprodução / Festa Muqueado Aldeia São Pedro

Após toda a experiencia vivida nos rituais anteriores as meninas são preparadas para o ritual final, a festa da menina moça. Esse ritual é a grande festa, após seu término as meninas e meninos já podem ser considerados preparados para a vida adulta. Esse último ritual é o momento em que os meninos participam juntos com as meninas da festa. Antigamente o menino escolhido para a dançar com a menina saia da festa com laços matrimoniais, e já poderiam formar família.


A festa começa na segunda-feira pela manhã e termina no domingo também pela manhã, esses sete dias são de intensa dança e cantoria. Pela parte do dia as meninas e meninos dançam separados, e a noite dormem enquanto a festa continua com os cantores, pajés e demais participantes que dançam ate por volta de até vinte e duas horas. Pessoas de outras aldeias e de outras regiões vão para a aldeia da festa participar juntos aos parentes.


Para dar início a preparação do muqueado, uma semana antes os homens da aldeia saem para a grande caçada, e nem toda caça pode ser consumida durante a festa, mas o principal símbolo do moqueado é a Guariba (macaco grande) e o pássaro Mutum. Moqueado é o nome dado a caça que fica no moquem. O moquem é uma espécie de jirau onde fica as caças, e em baixo tem brasas que ajudam no preparo do alimento.


Após a chegada dos caçadores, as mulheres recebem o que foi caçado para fazer a preparação do alimento que será usado na festa. Durante a preparação do moqueado, os jovens que vão participar do ritual precisam seguir algumas regras de proteção. A principal delas é não podem andar sozinhos pela aldeia, eles devem sempre estar acompanhados de alguém responsável e com entendimento do ritual.


As regras não são apenas para as moças e moços que estão fazendo a passagem, os demais participantes da festa assim como as meninas e meninos não podem ir para os rios ao longo dos sete dias, assim como é proibido matar animais ou insetos vindo da floresta, uma vez que eles podem vir acompanhados dos espíritos, as karuwaras.


Os iniciados recebem pinturas corporais no penúltimo dia, as meninas assim como no primeiro ritual são banhadas com o liquido do jenipapo, já os meninos recebem pinturas especificas para este momento. No último dia eles são enfeitados com penas, as meninas usam saias longas e os meninos uma saia feita de malva.

Imagem: Foto Reprodução/Festa Muqueado Aldeia São Pedro

O enceramento da festa se dá com cânticos e danças, após finaliza com rabo de arraia. O rabo de arraia é uma espécie de corrente humana fora da ramada, todos de braços dados, moças, rapazes e demais participante da festa, sacolejam de um lado para o outo, andam de trás para frente sem se soltar. Após esse momento do rabo de arraia as meninas e meninos correm até a ramada e finaliza-se assim a festa.