DESMATAMENTO: As veias abertas na Amazônia


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Tu já paraste por um momento e imaginou o seguinte cenário: uma área de 15.391 km² de floresta sendo devastada em apenas um ano? Essa destruição equivale a 4,2 vezes a área de todos os 7 Municípios que compõem a Região Metropolitana de Belém. Uma tragédia gigantesca, que por mais assustadora que pareça não tem nada de ficção científica. Trata-se de um cenário obtido a partir do cálculo da plataforma de inteligência artificial PrevisIA, que estima a maior destruição da floresta amazônica neste ano de 2022, caso nada seja feito para deter o rolo compressor que age impunemente, e sob o amparo e apoio direto dos atuais inquilinos do Palácio do Planalto.

Se alguém de bom senso ainda se deixa iludir pela propaganda do governo Bolsonaro, segundo a qual a “Amazônia vai muito bem, obrigado”, e que alerta de desmatamento seria coisa de “ONGs estrangeiras” a serviço do “globalismo” e outras teorias conspiratórias, é bom atentar para os últimos números do conceituado Instituto do Homem e do Meio Ambiente Amazônico (Imazon), comprovando que em 2021 foram destruídos 10.362 km2 de floresta nativa na Amazônia, o maior índice em uma década, sendo 29% maior que a cifra escandalosa de 2020. É uma escalada cujo teto simplesmente não existe, ou pior, se a sociedade brasileira continuar inerte, chegaremos sim a um ponto de não retorno, aquilo que os cientistas insistem em projetar para as próximas décadas, caso o desmatamento não seja freado.




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“Provavelmente estamos mais próximos do ponto de não retorno do que indicavam os estudos baseados só em modelagem computacional. Se cruzarmos esse ponto, em 30 a 50 anos vamos transformar de 50 a 70% da floresta num ecossistema muito degradado”, afirmou Carlos Nobre, climatologista brasileiro, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ouvido pelo site “Outras Palavras”.

O Pará infelizmente e vergonhosamente, se mantém pela decima sexta vez consecutivo em primeiro lugar como Estado que mais desmata a Amazonia, com 39%, seguido pelo Estado do Amazonas 21% e Rondônia 14%, referente ao mês de setembro de 2021, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente Da Amazonia (IMAZON).



Ditadura militar: as botas e a motosserra


Foto: Reprodução/Livro “Fuzis e as flechas”

A história amazônica dos últimos 50 anos mostra quais caminhos tortuosos foram trilhados para que se chegasse a esta situação desesperadora naquela que é a maior floresta equatorial do planeta, detentora de uma riqueza inestimável em socio-biodiversidade. Sem dúvida, não teríamos chegado a esse nível tão acelerado de degradação se não fosse a mão pesada dos militares que impuseram um modelo devastador ao longo de todo o período de regime de exceção (1964-1985), cujas raízes e pesadas consequências se estendem até os dias atuais.

Para os militares, a Amazônia era uma “terra sem homens para homens sem-terra”. Era preciso “integrar para não entregar” e o Brasil Potência (“Ame-o ou deixe-o”) teve nas grandes estradas que sangraram a floresta seu símbolo maior. Foi assim com a Transamazônica ou com a Santarém-Cuiabá, duas das principais frentes de extermínio dos povos indígenas e da mais brutal derrubada da floresta. Eliane Brum, a premiada jornalista que desde 2017 adotou Altamira como lar para viver, “no centro do mundo”, ergue a voz em defesa do modo de vida e de existência de gentes originárias (indígenas, remanescentes de quilombos, beiradeiros, ribeirinhos, etc..), conta em seu último e imperdível livro-reportagem (Banzeiro Òkòtò, Companhia das Letras, 2021), que coube ao ditador Médici, em 1970, visitar este município paraense e lá produzir imagens que marcassem o início da “grandiosa e extraordinária” obra. E não por acaso, o gesto simbólico escolhido para homenagear o sanguinário general-presidente foi a derrubada de uma castanheira de mais de 50 metros de altura!

Quanto sangue derramado! Quantas feridas abertas na carne da floresta! Na floresta que é mãe e irmã; nunca, jamais, floresta-mercadoria, precificada em dólar e embalada pelos acordes assassinos das bolsas de valores do além-mar. Não se deve jamais esquecer que foi a ditadura que matou 8.350 indígenas em 10 etnias estudadas, das 305 que vivem no Brasil, investigadas pela Comissão Nacional da Verdade, em 2017. No mesmo período, esse mesmo regime dizimou cerca de 400 opositores. Rubens Valente um jornalista que me inspira muito, em seu livro “Os Fuzis e as Flechas, História de sangue e resistência indígena na ditadura militar”, retrata muito bem esse período sangrento e violento contra os povos indígenas, que há época, a narrativa dos militares era negar as invasões e assassinatos de indígenas.

Do outro lado do espelho: progresso para uns poucos, miséria para todo o resto

A história se repete como farsa: a primeira fronteira a ser derrubada é a floresta que já existia desde muito antes da chegada dos invasores europeus. A madeira de lei foi sendo arrasada, naquelas “espinhas de peixe” formadas pelas vicinais surgidas ao longo das rodovias abertas pela ditadura. Daquele saque monstruoso, um punhado de endinheirados alcançou a fortuna; a grande massa de peões e posseiros permaneceram na miséria ainda mais obscena.

Atrás do trator e da motosserra, veio o gado e uma enorme engrenagem voltada para o crescimento da pecuária extensiva. Montanhas de dólares foram abastecer pouquíssimos bolsos. Tudo realizado através do derrame de bilhões e bilhões dos incentivos fiscais, uma das maiores e mais indecentes mamatas do período militar.

É essa herança que explica, nos dias que correm, o Pará ter mais cabeças de gado que habitantes (22 milhões de bovinos para 8,7 milhões de habitantes).

Enquanto a floresta devastada dava lugar ao pasto, floresceu a cultura da soja, que avança a partir do Cerrado, arrebentando as frágeis defesas do bioma amazônico. É essa commodity que está na raiz da pressão crescente contra a floresta em pé, de mãos dadas com a mineração e o garimpo clandestino. É por isso que não é exagero dizer que a sentença de morte contra os povos da floresta é ditada em inglês e em mandarim, no ritmo frenético da especulação dos que se julgam donos do mundo.

Na contracorrente desse movimento ecocida, a resistência e a (re)existência dos povos da floresta liderados em grande maioria por mulheres como; Alessandra Munduruku, Leuza Munduruku, Oé Kayapó, Tuire Kayapó, Juma Xipaya, Auriceli Arapium, Luana Kumaruara Puyr Tembé e tantas outras guerreiras originárias.

Os de cima, erguem cercas. Os de baixo, fabricam pontes sustentadas por uma esperança ancestral.

São os pequenos e aparentemente frágeis (“atrasados”, gritam os porta-vozes do necro-negócio) que são portadores da força que salvará o planeta. Quem viver, verá.