Fotografa é premiada em festival francês com o trabalho “Pseudo Indígenas”



A Amazônia deixou sua marca na edição 2021 do festival de fotografia Les Rencontres d’Arles, um dos mais importantes do mundo, que acontece no verão europeu anualmente, desde 1970, na pequena cidade de Arles, no sul da França. Representante da região Norte do Brasil, a série fotográfica Pseudo Indígenas, assinada por Ana Mendes e com curadoria de Marcela Bonfim, sagrou-se vencedora do programa Um Olhar sobre o Brasil, dedicado à projeção da fotografia documental brasileira na França, sob o tema Rituais Fotográficos/Rituais de Resistência.


Ana construiu o projeto premiado a partir do trabalho documental junto a duas etnias indígenas específicas que vem fotografando ao longo dos anos, os Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul e os Akroá-Gamella do Maranhão. Ela explica que o título Pseudo Indígenas está mais relacionado aos Akroá-Gamella. “Eles foram declarados extintos pelo Estado brasileiro e, em 2014, passaram a fazer autodeclaração pública de que são indígenas e não estão extintos. Na verdade, estavam com sua identidade censurada, calada, apagada por questões de violência simbólica. Como vários outros povos, estavam confundidos nesses nomes genéricos como caboclo, descendente de índio…”


Segundo Ana, os atos racistas contra os Akroá-Gamella se intensificaram a partir da autodeclaração. “Uma das falas era esta: ‘Eles não são índios, são pseudo-índios’. Essa tentativa simbólica de etnocídio desencadeou uma violência real, física, contra essa população”, explica. Como traço distintivo da série Pseudo Indígenas, Ana aplicou sobre as imagens expressões escritas de punho próprio, quase sempre extraídas de discursos de ódio racial. “São frases ditas por políticos, autoridades, pessoas públicas no geral”, conta.

O prêmio para Pseudo Indígenas será a participação, em novembro, na feira PhotoDoc que acontece na mesma época do Paris Photo, em Paris, ao lado das séries classificadas em segundo e terceiro lugar (respectivamente, O Grande Vizinho, de Rodrigo Zeferino, e Eu Sou Xakriabá, de Edgar Kanaykõ), ambas representantes da região Sudeste, e de Transparências do Lar, de Illana Bar, vencedora de prêmio especial do júri predominantemente francês, pela região Sul. Ana mora em Belém (PA) e a curadora Marcela, em Porto Velho (RO).



Via: Amazônia Real