Jaider Mucuxi o maior artista indígena do Brasil, ancestralizou


Foto Reprodução

Mais um guerreiro partiu para a morada dos ancestrais. Jaider Esbell, indígena do povo Mukuxi, um dos maiores artista plásticos do Brasil, partiu deixando seu legado em vários lugares do país e do mundo com as suas obras.


Nascido na região hoje demarcada como a Terra Indigena Raposa Serra do Sol, o artista, curador, escritor, educador, ativista, promotor cultural e pensador contemporâneo Jaider Esbell, indígena da etnia Macuxi, tinha como parte central de seu trabalho e pensamento anticolonialista a mostra na 34ª Bienal de São Paulo, em curso no Parque do Ibirapuera até 5 de dezembro, (primeiro indígena expor nesse espaço).


São de Jaider, por exemplo, as gigantescas cobras infláveis de 24 metros de comprimento que boiam no Lago do Ibirapuera.


Foto: Facebook/Bienal de São Paulo

Antes de tornar-se artista, habilidade descoberta na infância, Jaider percorreu diversos caminhos que acreditava ser o melhor para manifestar plenamente suas habilidades. Deixou a casa dos pais e chegou na capital Boa Vista com o Ensino Médio concluído. Como todo adolescente indígena, fez contatos pares com vilas, cidades e aldeias.


No site do artista, que narra sua história, Esbell sempre se encheu de misturas e, com habilidades aprimoradas na escola e vivências plurais no grande palco da vida roraimense, articulou-se, e, na capital, logo estava trabalhando como auxiliar técnico numa estatal. Seu primeiro contato com a arte foi em 2010, quando Jaider inscreveu-se pela primeira vez em um edital de literatura, Bolsa Funarte de Criação Literária – programa do Ministério da Cultura para apoiar financeiramente novos escritores. Esbell leva para Roraima uma das bolsas e lança no ano de 2012 o seu primeiro livro, Terreiro de Makunaima – Mitos, lendas e histórias em vivências.


Anos mais tarde, Jaider começa a pintar e, desde então, são várias exposições coletivas, viagens, inclusive para a Europa, fez itinerâncias, escreveu outros livros, artigos, produz rico material artístico e distribui nas mais variadas mídias. Em 2013 foi convidado para expor e dar aulas nos Estados Unidos, (Pitzer College). Antes de ir ao exterior Esbell articula o Encontro de Todos os Povos e participa da Exposição Coletiva e Latinoameríndia MIRA – Artes Visuais Contempor âneas dos Povos Indígenas, UFMG 2013. Para quem não sabe, o MIRA foi uma exposição que chegou a reunir 84 trabalhos de 50 artistas indígenas do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru.


A partir de 2013, quando passou a percorrer museus pela Europa, Jaider Esbell começou a desenvolver o conceito que chamou de “artevismo”, um ativismo contínuo que preconizava o resgate das motivações essenciais da arte indígena. Participou de diversas mostras internacionais (esteve em 10 países em 2019 ao lado de Daiara Tukano e Fernanda Kaingang) e passou a elaborar uma conceituação do sistema indígena que pressupõe a negação dos sistemas artísticos hegemônicos (europeus, notadamente) e das estratégias de colonização.


Combinando pintura, escrita, desenho, instalação e performance, seu trabalho entrelaça mitos indígenas, seu trabalho trazia luz e reflexão para a luta do nosso povo, tinha o poder não só mostrar a beleza de suas pinturas, mas também a força de representar a potência de nossa cultura. Não à toa, Jaider teve um papel de grande importância no movimento de consolidação da Arte Indígena Contemporânea no contexto brasileiro, atuando de forma múltipla e interdisciplinar e combinando o papel de artista, curador, escritor, educador, ativista, promotor e catalisador cultural, como destaca texto de apresentação do artista, na 34ª Bienal de São Paulo.


Além de ser um dos principais artistas desta edição da Bienal, ele também foi curador de uma mostra em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM), que reúne artistas indígenas.


Os traços de Jaider ficarão para sempre marcados na história da arte brasileira, quem quiser ver um pouco sobre o seu trabalho, é só circular ao redor do parque Ibirapuera, em São Paulo, para contemplar as duas serpentes de 24 metros de comprimento que flutuam sobre a lagoa do parque. Chamada "Entidades", a obra representa o ser fantástico Îkîimî, que atravessa vários mundos e que não tem começo e nem fim.


Jaider Esbell foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo, ontem (02). Segundo jornal Folha de São Paulo, quem achou o corpo do artista foi seu galerista André Milan, que preferiu não entrar em mais detalhes sobre o ocorrido.


O artista encontrara sua mãe adotiva Vovó Bernaldina, mestra indígena da cultura Mucuxi, que partiu em junho de 2020 por covid-19. Seu legado de luta, de resistência é uma inspiração para as futuras gerações e serão para sempre lembrados.


Vá em paz, jaider Mucuxi