O desmatamento da Amazônia e o aumento de doenças tropicais


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O debate sobre as mudanças climáticas vem se acentuado nos últimos anos. Mesmo que tardiamente, parte das lideranças políticas do mundo tentam mitigar o acelerado aquecimento do planeta causado pelo desmatamento desenfreado e o excesso de carbono produzido pela indústria. As comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais vêm denunciando há anos como a devastação tem mudado a dinâmica da natureza e afetado o clima, o plantio, os rios, a pesca e as cidades.

Na edição de 2022 do Gabinete de Inovação, realizada pelo Instituto Update, com a temática “Cidade, Clima e Justiça Social”, foi debatida a emergência climática nas cidades brasileiras. O projeto Amazônia Legal Urbana (https://amazonialegalurbana.com.br/publicacoes/) apresentou resultados sobre as desigualdades e os efeitos das mudanças climáticas nas capitais do Norte do país.


Entenda


A disseminação de doenças tropicais na Amazônia está diretamente ligada ao desmatamento da área. A transformação do território florestal em locais agrícolas e agroextrativistas favorecem a ocorrência de doenças, como a malária, a dengue e outras, de acordo com o que apontam vários estudos do governo e de organizações não governamentais.

O estudo conduzido pelo projeto Amazônia Legal Urbana (ALU), que analisou de 2010 a 2019 as mudanças climáticas nas capitais pertencentes à Amazonia, identificou que na grande maioria são as mulheres indígenas e negras que mais sofrem nas periferias das cidades com o aquecimento global. Acontece que essa população é a mais vulnerabilizada pelo descaso das políticas públicas. A pesquisa também mostra que o aumento de Dengue, Zika e Chinkugunya em Belém, Manaus e Boa vista nos últimos dez anos é resultado do aquecimento do planeta associado ao desmatamento da Amazônia. Os dados evidenciam a gravidade da questão.

Em Belém, no período de 2014 a 2020, teve a incidência de 153,93 casos de Chikungunya por 100 mil habitantes, seguido de Zika (40,59 casos/100.000 habitantes) e Dengue (34,96 casos/100.000 habitantes). Em Manaus, no mesmo período, teve um número maior de incidência de Dengue (100,04 casos/100 mil habitantes). Já em Boa Vista, apenas no ano de 2019, foram 179 casos por 100 mil habitantes. Confere a pesquisa completa de todas as capitais no site do projeto.



Foto: Agência Belém

Dentro desse aumento, o grupo que mais sofre com a incidência das doenças são os as mulheres indígenas e negras, de acordo com a pesquisa. Só em Belém 37% das mulheres indígenas e 50% das mulheres negras não possuem água encanada; e os indígenas em geral são os que menos tem acesso a rede geral de esgoto. Essa falta de acesso ao saneamento básico deixa essa população mais suscetível às novas enfermidades que têm surgido com a mudança do clima provocada pela devastação do meio ambiente, principalmente da Amazônia.

No primeiro trimestre de 2022, a Amazônia legal registrou o maior número acumulado de alertas de desmatamento na história, o monitoramento foi feito pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). O total chega a 941,34 km², maior índice desde 2016. Os dados são da plataforma Terra Brasilis, do Inpe, e foram atualizados em 8 de abril de 2022. Como consequência dessa tragédia, houve um aumento de doenças, como os casos de malária nas regiões urbanas do Pará. De acordo com a pesquisa da ALU, é preciso que o Plano Diretor das cidades da Amazônia se adapte para conter os impactos das mudanças do climáticas em suas cidades, pois futuras cheias dos rios e maior incidência de doenças podem piorar na região norte.

A pesquisa do projeto ALU apresenta a necessidade de revisão do Plano Diretor Municipal das capitais amazônidas, com a elaboração de um plano territorial de mudanças climáticas com ações de adaptação às mudanças de clima, considerando as desigualdades étnico-raciais e de gênero na saúde. Um plano elaborado de forma participativa, trazendo mulheres para o centro das discussões e decisões sobre as adaptações às mudanças climáticas.

O Governo Bolsonaro tem mantido sua postura negacionista sobre assunto, ao cortar 93% das verbas de pesquisa em mudanças climáticas, por incentivar o desmatamento da Amazônia e por ter facilitado a passagem da ‘boiada’ dos seus amigos pecuaristas e garimpeiros na região. Isso acontece não apenas porque Bolsonaro ignora evidências científicas em prol de garantir lucro para sua família e amigos, mas também porque destruir e subjugar indígenas, quilombolas e a classe popular faz parte do plano de governo e são esses os mais impactados com o aquecimento global.

Não tem mais como fingir que a luta do meio ambiente é distante de nós ou das grandes cidades, o que acontece na floresta atinge a todos. A defesa do meio ambiente é uma luta do campo e da cidade na busca de uma vida digna e sustentável para se viver.