O triplo assassinato de jovens encontrados na TI Parakanã reacende discurso de ódio contra indígenas


Foto reprodução

De repente, a mídia voltou a falar dos Awaeté, também conhecidos como Parakanã, povo indígena de duas áreas demarcadas no interior do Pará. O motivo não poderia ser mais trágico: o assassinato de três jovens moradores da cidade de Novo Repartimento, no sudoeste do estado, cujos corpos foram encontrados em covas rasas dentro da Terra Indígena (TI) Parakanã. Com uma extensão de 351 mil hectares, este território abrange os municípios de Novo Repartimento, Jacundá e Itupiranga, no Pará.

Demarcada e com sua situação jurídica regularizada desde 1991. A outra área Parakanã está localizada na bacia do Xingu (TI Apyterewa), uma das áreas indígenas onde se registram índices alarmantes de devastação e grilagem. Esse povo fortemente impactado pela rodovia Transamazônica, chegou perto da extinção e hoje sofre com a invasão do seu território, por garimpeiros, madeireiros e caçadores.

Desaparecidos desde o dia 24 de abril, os corpos foram localizados no sábado, 30, e contou com a mobilização de um grande contingente de policiais federais e de vários órgãos de segurança pública e apoio dos indígenas. As circunstâncias do triplo homicídio ainda permanecem nebulosas, aguardando a conclusão das investigações da PF e dos laudos periciais. Entretanto, o fato dos corpos terem sido encontrados no interior da terra indígena foi suficiente para detonar uma forte campanha de ódio contra os Awaeté, com a multiplicação das ameaças à vida dos indígenas. Podemos estar no limiar de um conflito sangrento.



Liderança indígena Parakana


Circulam na região mensagens racistas e intimidatórias. ”Se ninguém pode entrar lá, eles também não podem entrar aqui. Fora! Queremos justiça!!”, diz uma dessas postagem que viralizou nas redes sociais. Outros internautas se sentiram à vontade para ameaçar diretamente os indígenas, propondo o fuzilamento sumário em retaliação aos assassinatos, mesmo sem nenhuma prova que foi indígena tiraram a vida dos jovens.



Plaquinha contra entrada dos indígenas na cidade: Reprodução Rede Social

Em minha dissertação de conclusão do curso de jornalismo, em 2017, analisei justamente essa forma com o indígena aparece nos meios de comunicação, sempre de maneira pejorativa e em situação conflituosa, herança maldita dos colonizadores sobre os povos originários de que são “violentos e selvagens, sem alma”. Após mais de três anos de governo Bolsonaro, o mais anti-indígena dos últimos tempos, esse caldo de cultura perversa está ainda mais forte.



Print de ameças aos indígenas. Imagem: Reprodução

As primeiras versões, ainda sem confirmação, dão conta de que os jovens seriam caçadores e que ingressaram na TI com esse objetivo. Porém, não há qualquer certeza nem desse e nem de nenhum outro detalhe que ajude a elucidar o crime. Seriam os jovens realmente caçadores? Qual a relação deles com a comunidade indígena? O que aconteceu efetivamente e quem seriam os responsáveis pelos assassinatos?

Não é de costume e nem de prática dos indígenas, quando encontrarem invasores em seus territórios, agredirem ou matarem, na maioria das vezes, eles tomam os armamentos, chamam a polícia e conduzem para fora da reserva.



Transamazônica. Imagem: Dnit

Transamazônica: a estrada do etnocídio Awaeté


Foi a ditadura militar (1964-1985) a responsável por um dos mais odiosos massacres indígenas da história recente do país. Com a construção da rodovia Transamazônica, no início da década de 1970, uma vasta população de muitos milhares de indígenas se viu frente a frente com uma realidade brutal, que provocou seu deslocamento forçado, com a expulsão das terras que ancestralmente viviam, assim como um rápido e mortal contato com doenças que provocou o quase extermínio de muitas etnias. Uma das principais vítimas desse etnocídio, sem dúvida, foi o povo Awaeté, cujo contato esporádico com os brancos datava do início do século XX, mas que se intensificou de maneira trágica na medida em que avançavam as frentes de trabalho da nova estrada. Em pouco tempo, pelo menos 1 de cada 3 indígenas perdeu a vida, vítima de doenças respiratórias para as quais não tinham a menor defesa. Restaram somente 87 pessoas como sobreviventes de uma guerra não declarada, mas igualmente brutal, tendo como parte agressora o Estado brasileiro.

No início da década de 1980, a luta deste povo do tronco Tupi foi responsável por uma lenta recuperação populacional. Em 1991, a TI Parakanã foi finalmente homologada. Com o território assegurado, em três décadas, estima-se que mais de mil indígenas vivam nas aldeias Awaeté, buscando preservar sua língua, costumes e tradições, mesmo diante da permanente ameaça e efetiva realização de invasões e roubo da riqueza natural que a Constituição Federal estabeleceu como de proteção permanente.


Justiça para quem precisa de justiça



Bloqueio da Transamazônica por familiares da vítima. Foto: Redes Sociais

Qualquer atentado contra a vida humana merece ser repudiado. A morte violenta dos três moradores de Novo Repartimento deve ser apurada com o máximo rigor e todas as circunstâncias desse bárbaro assassinato devem ser esclarecidas o mais rápido possível. Isso não significa, de forma alguma, autorizar que se criminalize a comunidade Awaeté e que se deflagre uma campanha de ódio, que das redes sociais pode migrar para a vida real, provocando um banho de sangue, cujas principais vítimas, mais uma vez, serão os indígenas.

A justa comoção dos familiares e amigos dos rapazes está sendo manipulada para estimular ataques ao povo Awaeté, mas a todos os povos originários, retroalimentando antigos preconceitos, algo infelizmente que apenas reforça o fato do Brasil ser uma nação fundada na escravização e extermínio dos povos que aqui vivem milhares de anos antes da chegada das caravelas invasoras.

A hora é de ação por parte dos órgãos do Estado para que se evite o pior. Cabe à União Federal a devida proteção das terras indígenas. Não se trata de agir quando o sangue já foi derramado, mas preventivamente evitar que essas tragédias continuem se repetindo.

Há 522 anos do falso descobrimento, nosso país tem a chance de se olhar no espelho, reconhecer e respeitar sua face indígena e, de uma vez por todas, se abrir para um futuro de paz e respeito às diferenças.