Racismo religioso não pode mais dividir o povo de Belém


Uma ação livre de qualquer rótulo, onde pessoas múltiplas, com culturas e crenças distintas se misturaram em prol de um só objetivo, o de plantar, cuidar e preservar o meio ambiente, foi esse o intuito do movimento realizado no último dia 5 deste mês, na Praça da República, localizada no centro de Belém, data em que celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Que existe para reforçar a importância da mãe terra para todo o ser vivo. No entanto, houve quem interpretasse a ação como um gesto de manifestação religiosa, levando a temática do evento para um contexto totalmente distinto do que realmente foi abordado, e como se não bastasse, um cidadão de nome desconhecido fez um vídeo intolerante a religião escolhida individualmente por cada um de nós, se mostrando desrespeitoso com o público ali presente.


No vídeo onde é perceptível notar do que se tratava o encontro, pois mostra pessoas plantando árvores, há uma narrativa criminosa de intolerância religiosa, atacando o direito de liberdade de escolha, seja ela de crenças ou não. Uma atitude cruel e desumana que agride um povo inocente que apenas desejava semear o bem. Vivemos em um país laico, onde a religião se redistribui por esferas únicas, seguindo a verdade individualizada de cada cidadão, que escolhe cultuar coletivamente uma doutrina, fazendo valer os princípios escolhidos para a particularidade da própria vida.


O oportunista usou a presença do prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, que participava do evento em alusão ao dia do meio ambiente, para disseminar maldade, fazendo da religião, que é algo tão sagrado, uma arma de ataque e incentivo ao ódio, por algo que deveria ser amor. O encontro não era em prol de religião, mas e se fosse? Qual é o problema de ser candomblecista, umbandista, evangélico, budista ou seja lá qual for a religião? E se fosse um ato ecumênico? onde estaria o crime em reunir pessoas com diferentes ideias, perspectivas e crenças? Em pleno século XXI viver esse tipo de situação só mostra o quanto o ambiente em que vivemos é tóxico, cheio de pessoas maliciosas, que fazem da religião uma camuflagem da verdadeira identidade, confundindo as pessoas de bem sobre o verdadeiro significado da fé.


Apesar da interferência de quem só se fez presente para espalhar o mal, a plantação de mudas foi um sucesso, um momento histórico que reuniu representantes indígenas, que puderam plantar árvores ancestrais, como o jenipapo, fruto de onde é retirado a tinta para dar vida a pinturas corporais. “Eu mesma fiz plantações de algumas mudas e me comprometi a revezar com os parentes nos cuidados dessas mudas, pois é muito importante para nós, visto que em Belém há uma escassez enorme de jenipapo, urucum, cuia, que hoje são contados a dedos. Vamos recuperar árvores que fazem parte da nossa história e que representam a nossa ancestralidade”. Tiveram também povos de matriz africana, plantando alecrim, ogum e outras diversidades de plantas sagradas. A emoção também se fez presente, e canções embalaram o momento idealizado pela Coordenadoria Antirracista de Belém.